Informativo
TARIFAÇO DESIDRATADO É VITÓRIA DE LULA E DEIXA SEQUELAS PARA BOLSONARO
Sob a coordenação do vice-presidente Geraldo Alckmin, o governo
trabalhou em várias frentes para ganhar tempo e reduzir os danos. Foi exitoso
nos dois pontos.
Por André Cintra
Há três semanas, o presidente norte-americano,
Donald Trump, prometeu um tarifaço amplo, geral e irrestrito para as
exportações brasileiras aos Estados Unidos. A ameaça era de uma taxa de 50% a
partir de 1º de agosto – e o mero anúncio já levou empresas a paralisarem
atividades, decretarem férias coletivas e até demitirem trabalhadores.
Nessa quarta-feira (30), a promessa foi
convertida em decreto presidencial. Mas Trump adiou o início da vigência do
tarifaço para 6 de agosto e ainda desidratou consideravelmente a lista de
setores atingidos, com 694 exceções. Nas contas da Amcham Brasil (Câmara
Americana de Comércio para o Brasil), 43,4% dos produtos exportados pelo Brasil
ficaram de fora. A lista de isenções inclui polpa e suco de laranja,
castanhas-do-pará, aeronaves civis e seus itens, papel e celulose, petróleo,
carvão, gás natural e seus derivados.
Na prática, a sobretaxa de 50% valerá apenas
para setores do agronegócio, como café, frutas, carnes e pescados.
Especialistas apontam que, no caso específico do café, Trump será forçado a
rever a tarifa a curto prazo. Como os Estados Unidos não têm como substituir o
volume de exportação cafeeira do Brasil, a inflação do produto no mercado
norte-americano virá de modo célere e devastador.
Mesmo com o recuo, a medida representa uma
agressão injustificada. À luz das regras da OMC (Organização Mundial do
Comércio), não há fundamento econômico que sustente o ataque de Trump. O
tarifaço, a rigor, nem sequer pode ser chamado de protecionista, uma vez que
praticamente não há concorrência norte-americana aos setores afetados no
Brasil. É um jogo de perde-perde, no qual a fatura há de chegar para o titular
da Casa Branca.
Do ponto de vista político, a vitória do
governo brasileiro é incontestável. Tendo como base os tarifaços impostos
anteriormente por Trump a outros países, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
sabia que era impossível evitar 100% das retaliações ao Brasil. Sob a coordenação
do vice-presidente Geraldo Alckmin, o governo trabalhou em várias frentes para
ganhar tempo e reduzir os danos. Foi exitoso nos dois pontos.
Lula sai fortalecido do “primeiro round”
dessa batalha. A interlocução com o setor produtivo foi exemplar e ajudou a
diminuir as tradicionais arestas com alguns setores, especialmente o
agronegócio. De acordo com Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional, o
governo já tem pronto um plano para atenuar os efeitos do tarifaço.
O governo também acertou ao demarcar o cenário
como uma disputa entre os defensores da soberania nacional e os traidores da
pátria. A altivez de Lula, reiterada de discurso em discurso – e até num
pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV –, garantiu avanços em sua
popularidade, além de estimular um sentimento de união nacional.
“Diante da ameaça do tarifaço dos EUA, o Brasil
não se curvou. Com firmeza e diálogo, o governo brasileiro defendeu nossos
interesses e fez Washington recuar, mostrando que nossa economia tem peso e
nossa diplomacia tem voz”, resumiu a presidenta do PCdoB, Luciana Santos.
“Estamos abertos ao diálogo, mas ingerência no Brasil é inaceitável – seja
econômica, institucional ou digital. Seguimos reconstruindo o país com
soberania, respeito e voz ativa no mundo.”
É importante frisar que Lula conquistou esse
feito num momento em que a Casa Branca bloqueava todos os canais diretos de
interlocução com o governo brasileiro. Quem acabou por assumir a linha de
frente das tratativas em nome de Trump foi o secretário de Comércio dos Estados
Unidos, Howard Lutnick, com quem Alckmin se reuniu por duas vezes.
Para piorar, o deputado federal Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) admitiu que usava sua influência contra o Brasil. Ao comentar
a presença da comitiva suprapartidária do Senado que foi aos Estados Unidos
para negociar os termos do tarifaço, o parlamentar declarou ao SBT News: “Eu
trabalho para que eles não encontrem diálogo”.
Eduardo escancarou o que setores empresariais
davam como favas contadas: para enfrentar a crise, não era possível contar com
o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro e de boa parte de seus aliados. A
despeito do risco de fechamento de empresas e postos de trabalho no Brasil, a
família Bolsonaro – com Eduardo à frente – ficou abertamente ao lado de Trump e
dos Estados Unidos. O episódio desagradou até a segmentos hostis ao governo
Lula.
“Por atuar deliberada e sistematicamente para
prejudicar o Brasil, em nome dos interesses particulares de sua família,
Eduardo Bolsonaro precisa ter cassado seu mandato de deputado federal. Trata-se
da única reação cabível por parte de uma democracia digna do nome”, cobrou, em
editorial, o Estadão.
Curiosamente, a primeira e mais célebre vítima
do pandemônio instalado por Trump foi Jair Bolsonaro – a quem, de início, se
atribuía a condição de maior beneficiário do tarifaço. O consórcio promíscuo
entre sua família e o governo norte-americano levou o ministro Alexandre de
Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), a lhe impor o uso de tornozeleira
eletrônica, a proibição de acesso a embaixadas e consulados, entre outras
medidas cautelares.
As sequelas para o ex-presidente não param por
aí. Pesquisas de opinião feitas após o anúncio inicial do tarifaço indicam que
a rejeição a seu nome – já elevada – cresceu ainda mais. Na mesma medida,
elevou-se a pressão para que Bolsonaro, inelegível até 2030, pare de se
apresentar como candidato à sucessão de Lula e passe a apoiar uma alternativa
no campo da direita.
A luta contra o tarifaço continua, e os
próximos rounds exigirão novas estratégias do governo Lula. As
manifestações populares marcadas para esta sexta-feira (1/8) não perdem
relevância. Ao contrário: dada a imprevisibilidade da gestão Trump, é
fundamental reforçar o chamamento pela soberania nacional. A guerra de Trump e
da extrema direita não acabou, mas o Brasil já mostrou que é capaz de vencê-la!
Fonte: Portal Vermelho
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