Informativo
A HISTÓRIA REFUTA OS ARGUMENTOS PATRONAIS CONTRA O FIM DA ESCALA 6×1
Por Adilson
Araújo, presidente da CTB
Na medida em que se aproxima o momento da votação, pela Câmara
Federal, da PEC que acaba com a desumana escala 6×1 e reduz a jornada de
trabalho sem redução de salários os proprietários do capital intensificam a
pressão para impedir a aprovação da proposta, requentando velhos e surrados
argumentos que, embora possam parecer sensatos, carecem de fundamento
científico e são reiteradamente desmentidos pela história.
Ao contrário das alegações patronais e do que em geral imagina o
senso comum, trabalhar mais horas não se traduz necessariamente em maior
produção. A história e a ciência demonstram que o descanso é estratégico para
garantir maior produtividade do trabalho, saúde e bem-estar social, com redução
dos adoecimentos e do absenteísmo.
Saúde e
produtividade
A exaustão física e mental gerada por longas jornadas de trabalho
é a principal causa do burnout, que afeta 30% da classe trabalhadora
brasileira, do estresse crônico, que castiga nada menos que 70%, e também de
acidentes laborais, que em 2025 lesionaram 806.011 trabalhadores e
trabalhadoras brasileiras, deixando um saldo de 3.644 mortes. O Ministério do
Trabalho estima que os acidentes de trabalho podem gerar uma perda de até 4% do
PIB brasileiro.
Jornadas exaustivas cobram um preço alto do sistema de saúde e
afetam negativamente a produção. Em 2024, o Brasil registrou meio milhão de
afastamentos por doenças psicossociais decorrentes de condições desfavoráveis
no ambiente de trabalho, considerando apenas o emprego formal. Quando o corpo e
a mente operam no limite, a taxa de erros aumenta, a criatividade cai e o
absenteísmo cresce.
A redução das horas de trabalho é um remédio contra esses males.
Com mais tempo livre, o trabalhador dorme melhor, pratica atividades físicas,
cultiva relações sociais e dispõe de tempo para estudo e formação. Esse
equilíbrio regenera a capacidade do indivíduo, deixando-o mais focado, enérgico
e motivado durante o processo de produção, compensando com lucro a redução da
jornada.
Tendência
histórica
A luta pela redução da jornada atravessa os séculos de história do
capitalismo e, conforme observou o vice-presidente Geraldo Alckmin, é uma
tendência objetiva do desenvolvimento das nações, associada ao ingresso de
novas tecnologias e progresso da produtividade do trabalho. As lições da
história são sugestivas e devem ser levadas em conta no debate atual.
Durante o século 19, no auge da Revolução Industrial, as pessoas
trabalhavam até 16 horas por dia. Já naquele época o célebre Robert Owen, um
dos fundadores do socialismo utópico, defendeu o lema “Oito horas de trabalho,
oito horas de recreação, oito horas de descanso”. As fábricas que adotaram a
redução perceberam que trabalhadores menos exaustos cometiam menos falhas e
operavam o maquinário com maior rapidez.
Em maio de 1926, o empresário Henry Ford chocou a grande burguesia
estadunidense ao reduzir a jornada semanal de trabalho dos operários de sua
indústria, a automobilística que até hoje leva seu nome, para 40 horas
semanais, substituindo a desumana escala 6×1 pela 5×2 e mantendo os mesmos
salários. Convém notar que é precisamente a mesma reivindicação feita hoje pela
classe trabalhadora brasileira, 100 anos depois, que com um século de atraso
causa tanto alarmismo irracional no meio empresarial: jornada de 40 horas
semanais com escala 5×2 sem redução de salários.
Ford percebeu empiricamente que o rendimento caía drasticamente
após certo número de horas trabalhadas devido à crescente exaustão. A mudança
não só aumentou a produtividade diária dos operários na linha de montagem, como
transformou os próprios trabalhadores em consumidores que agora tinham tempo
para usar os carros que fabricavam. Em vez da catástrofe prevista por setores
reacionários do patronato, o que se viu foi aumento da produtividade e do PIB.
O
Experimento da Islândia (2015–2019)
Num significativo teste moderno de redução de jornada, mais de
2.500 trabalhadores islandeses diminuíram sua carga para 35 ou 36 horas
semanais sem redução salarial, trabalhando na escala 4×3. Foi um sucesso incontestável:
os níveis de estresse e esgotamento despencaram, o equilíbrio entre vida
pessoal e profissional melhorou drasticamente, e a produtividade permaneceu
igual ou aumentou na grande maioria dos locais de trabalho.
Após a adoção da jornada de trabalho sobreveio um crescimento
econômico significativo. Entre 2020 e 2022, a economia islandesa cresceu 5%,
superando a maioria dos países europeus e mantendo uma taxa de desemprego
baixa, em torno de 3,4%. O crescimento econômico foi acompanhado por uma melhoria
significativa na sensação de bem-estar da população.
Testes com jornada reduzida revelam que o faturamento anual das
empresas subiu, em média, mais de 30% devido ao ganho de produtividade,
enquanto o absenteísmo caiu 65% e a retenção de talentos subiu.
Experiências históricas mundiais, como a transição para as 35
horas na França, também se provaram indutoras de mercado, gerando cerca de 350
mil novos postos de trabalho. O catastrofismo alardeado por setores
conservadores do empresariado, representados no Congresso Nacional por
políticos de extrema direita, nunca se confirmou nas nações que modernizaram
suas relações laborais, conforme sublinhou Edmundo Ferreira Fontes, acadêmico
de Gestão em Recursos Humanos da Universidade Anhembi Morumbi.
É bom notar que nem todos os empresários são cegos em relação às
óbvias relações entre jornada, saúde do trabalhador e produtividade do
trabalho. O depoimento da empresária e CEO da cafeteria paulistana Coffee Lab,
Isabela Raposeiras, durante audiência na Câmara Federal é emblemático a este
respeito. Ele refutou a ideia de que a redução da jornada sem redução de
salários vai quebrar as empresas e citou a experiência da empresa que dirige
como prova.
Após adotar a jornada de 4×3 (quatro dias de trabalho e três de
folga), o negócio registrou um aumento de 35% no faturamento e reduziu quase a
zero a rotatividade de funcionários. O impacto do modelo de jornada reduzida
implementado na Coffee Lab e defendido pela CEO envolve uma série de fatores
positivos, com destaque para o aumento da produtividade do trabalho.
A empresária afirma que funcionários descansados cometem menos
erros e atendem melhor, o que compensa as horas a menos trabalhadas. Com uma
equipe motivada, a empresa gasta menos com rescisões e novas contratações (turnover)
e sofre menos com faltas e atestados (absenteísmo). Trabalhadores da Coffee Lab
relatam que a escala antiga não permitia sequer recuperar a energia ou ter vida
social.
Reduzir a jornada de trabalho não significa produzir menos nem
mesmo diminuir o número total de horas trabalhadas na sociedade, pois a
necessidade de manter ou elevar o nível de produção gera novos postos de
trabalho, abrindo vagas para milhões de desempregados, desalentados e
subocupados. Por esta razão, associada à alta da produtividade, em vez de queda
verifica-se o crescimento da produção e do PIB. Significa produzir melhor,
garantindo que o trabalhador ou trabalhadora — o componente mais valioso das
forças produtivas — permaneça saudável, inovador e sustentável a longo prazo.
Significa uma distribuição mais justa e humana dos ganhos de produtividade
decorrentes das inovações tecnológicas e outros fatores.
Argumentos
na contramão da história
Ao longo dos séculos, os senhores do capital e seus vassalos
utilizaram argumentos econômicos muito semelhantes para barrar a redução do
tempo de trabalho: o aumento imediato dos custos de produção, a perda de
competitividade internacional e o risco de demissões em massa.
Em 1837, por exemplo, o economista Nassau Senior, afamado pela sua
ciência económica e belo estilo, argumentou que reduzir a jornada nas fábricas
inglesas quebraria a indústria porque, em sua douta opinião, o lucro seria
gerado apenas na fatídica “última hora” da longa e insalubre jornada.
Ressalte-se que foi muito bem remunerado pelos patrões que contrataram seu
parecer.
Sua pregação, duramente criticada por Karl Marx (O Capital: 3. A
«última hora» de Senior), não impediu a gradual regulação e redução da jornada
pelo Parlamento da Inglaterra, primeiro para crianças e depois para adultos. Ao
longo do século 19 a jornada de trabalho do proletariado britânico foi reduzida
de 16 horas para 10 horas diárias, graças à luta da classe operária e seus
aliados. O resultado objetivo da diminuição do tempo de trabalho desmentiu e
desmoralizou as ideias estapafúrdias e catastrofistas de Senior.
O veredito histórico sugere ainda que a redução da jornada
funciona ainda como um catalisador de inovação. Forçadas a otimizar o tempo, as
empresas investem em tecnologia, melhoram a gestão de processos e reduzem
desperdícios, neutralizando os custos da redução da jornada previstos pelos
críticos.
A realidade
brasileira
Os dados estatísticos atuais justificam a urgência da redução da
jornada sem redução de salários com o fim da escala 6×1, precisamente um século
após a referida iniciativa do norte-americano Henry Ford.
Conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil ocupa apenas a
86ª posição em produtividade por hora trabalhada. Países com jornadas menores,
como Alemanha (13º no mesmo ranking) e Reino Unido (22º), produzem
significativamente mais por hora. É um indicador, entre outros, de que quanto
menor a jornada maior a produtividade. Num aparente paradoxo da produtividade o
tempo de trabalho é menor mas a produção, maior.
O projeto piloto da Semana de 4 Dias no Brasil, na qual prevalece
a escala de quatro dias de trabalho e três de descanso, apontou melhorias
expressivas na produtividade e redução drástica do estresse. Cerca de 78% dos
trabalhadores e trabalhadoras participantes afirmaram que mantiveram exatamente
a mesma qualidade das entregas atuando um dia a menos na semana.
Uma pesquisa da economista Marilane Teixeira (Unicamp) estima que a mudança
para 36 horas semanais pode elevar a produtividade nacional em até 4% e gerar
4,5 milhões de novos empregos. A perspectiva da especialista contrasta com
prognósticos de entidades patronais que alertam para desemprego e queda da
produção.
O cenário brasileiro atual repete contradições verificadas no
passado e as ideias divergentes sobre o tempo de trabalho refletem interesses
antagônicos dos donos do capital, de um lado, e da classe de trabalhadora, de
outro. O patronato não quer abrir mão das margens de lucro, mas a história
mostra que os interesses da classe trabalhadora estão mais afinados com as
tendências do desenvolvimento da civilização humana e a emergência das novas
tecnologias.
Por esta razão, e também por corresponder ao anseio de uma
respeitável maioria, a PEC da redução da jornada sem redução de salários e com
o fim da desumana escala 6×1 (apoiada por 68% do eleitorado, segundo a última
pesquisa Quaest), deve ser aprovada pelo Parlamento.
Fonte:
Portal CTB
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