Informativo
DAS TARIFAS ÀS TERRAS RARAS, LULA REPOSICIONA O BRASIL APÓS ENCONTRO COM TRUMP
Reunião de três horas, na Casa
Branca, terminou com os presidentes destacando avanços concretos. A relação
saiu do limbo e voltou à mesa.
Por André Cintra
A quinta visita
de Luiz Inácio Lula da Silva a Washington tinha tudo para ser uma agenda de
alto risco – um teste de pressão – para um presidente que enfrenta uma eleição
no horizonte. O cenário era agravado não apenas pela persistência parcial do
“tarifaço” imposto em 2025. Ao lado disso, o Brasil e o mundo convivem com o
“modo Donald Trump” – tensão comercial permanente, ameaças tarifárias e um
ambiente internacional atravessado por guerras, disputas tecnológicas e
reorganização das cadeias produtivas.
Mas a reunião de três horas entre Lula e Trump, nesta
quinta-feira (7), na Casa Branca, terminou com os presidentes destacando
avanços concretos. A relação saiu do limbo e voltou à mesa. Os dois lados
concordaram que novas reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme
necessário – e a ameaça de escalada de atritos foi contida. Lula volta ao
Brasil com canal político aberto, reconhecimento de interlocução e disposição
para continuidade das negociações.
A agenda da visita previa uma declaração conjunta à imprensa no
Salão Oval, que não ocorreu. Mas Trump – que raramente distribui elogios
gratuitos a líderes estrangeiros – foi à sua rede social, a Truth
Social, e voltou a classificar o presidente brasileiro como “muito
dinâmico”. Lula retribuiu elogios e, antes da coletiva do presidente na
embaixada do Brasil em Washington, ministros já falavam em uma reunião
“extraordinária”, “muito positiva” e “altiva”.
Tarifas, minerais críticos, segurança e cooperação econômica
estiveram no centro das negociações. O tom adotado por Trump após o encontro
sugere que Washington passou a enxergar Brasília menos como problema e mais
como parceiro necessário. A Casa Branca não subestima o peso estratégico do
Brasil em temas decisivos para a próxima década, como transição energética, terras
raras, segurança alimentar e estabilidade regional.
Enfrentando
o “tarifaço”
Quando Trump anunciou, em 2025, novas tarifas e mecanismos de
proteção comercial para setores estratégicos da economia norte-americana, muita
gente apostou que países periféricos acabariam entrando numa fila de
concessões. Além de lançar um tarifaço de 50% sobre uma ampla gama de produtos
do Brasil, Trump abriu investigação comercial contra o País e sancionou
autoridades brasileiras no contexto das tensões políticas bilaterais.
Mas não houve capitulação. Em vez da submissão diplomática, Lula
apostou numa combinação de firmeza política e pragmatismo econômico. Houve
diversificação comercial e reforço do Mercosul, sem transformar o embate em
guerra ideológica. Em compensação, Lula criticou o tarifaço publicamente,
elevou o tom e manteve a linha de que o Brasil “não negocia de joelhos”, nem
aceitaria medidas unilaterais que prejudicassem exportações nacionais.
A estratégia construiu uma posição, e o resultado apareceu nesta
visita: Lula apresentou números e fatos que mostram como o protecionismo
norte-americano fere os dois lados, especialmente em setores como aço, alumínio
e etanol. Trump confirmou publicamente que o tema esteve na mesa e concordou em
criar um grupo de trabalho bilateral para revisar tarifas setoriais nos
próximos 90 dias.
A mudança é importante porque, até pouco tempo atrás, a política
comercial dos EUA vinha operando sob um eixo quase exclusivamente defensivo:
proteger a indústria doméstica a qualquer custo, mesmo em confrontos com
parceiros históricos. Hoje, o encontro ajudou a desarmar a lógica de escalada
tarifária.
Terras
raras
Há dez anos, uma reunião Brasil-EUA giraria principalmente em
torno de petróleo, etanol ou commodities agrícolas.
Agora, o centro gravitacional mudou e deu ao Brasil uma vantagem estrutural. Os
minerais críticos estiveram entre os assuntos prioritários da agenda – o que
ajuda a entender por que Washington tratou a visita com tanta atenção.
O Brasil possui reservas importantes de terras raras – que são
insumos essenciais para a produção de baterias, semicondutores, inteligência
artificial, carros elétricos e indústria militar. Quem controla essas cadeias
controla parte relevante da economia do futuro. O desafio brasileiro é garantir
a expansão produtiva do setor, abandonando a tradição de exportações primárias
sem valor agregado.
Ao mesmo tempo, os EUA sabem que dependência excessiva da China
nesse setor virou um problema estratégico. Lula percebeu essa janela. Ao
inserir o Brasil como parceiro confiável na reorganização dessas cadeias
globais, o governo tenta transformar riqueza mineral em instrumento de
soberania.
“Nós não temos preferência”, afirmou Lula à imprensa. “Quem
quiser participar conosco para ajudar a gente a fazer a mineração, a separação,
e para produzir a riqueza que essas terras raras nos oferecem está sendo
convidado para ir ao Brasil.”
Os dois países avançaram num memorando de entendimento para
investimentos norte-americanos em refino e processamento local, com transferência
de tecnologia. O Brasil sinalizou abertura à parceria, com a condição de que o
valor agregado fique em território nacional. Segundo Lula, o Brasil – que já
foi a “grande fazenda do mundo”, uma colônia extrativista – quer usar as terras
raras para se transformar numa plataforma industrial verde.
Segurança
e estabilidade regional
Um dos capítulos menos comentados da reunião, mas potencialmente
dos mais duradouros, foi o de segurança. O governo Lula tentou ampliar acordos
de inteligência e compartilhamento de dados com autoridades norte-americanas.
Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, os países já trabalham
conjuntamente na troca de informações sobre cargas e contêineres suspeitos de
transportar armas e drogas.
Na conversa entre os presidentes, a proposta brasileira foi de
maior cooperação em segurança, o que envolve combate ao crime organizado
transnacional (incluindo garimpo ilegal, tráfico de drogas e armas),
estabilidade regional e coordenação em temas hemisféricos. A oferta foi aceita:
os EUA terão acesso a informações e apoio logístico, mas sob coordenação
brasileira.
A discussão ganhou força após o Departamento de Estado dos EUA
classificar o PCC e o Comando Vermelho como ameaças significativas à segurança regional.
O governo norte-americano avaliou enquadrá-las como organizações terroristas.
Lula escolheu transformar o tema em agenda propositiva, expondo o que seu
governo já faz e o que pretende fazer.
Nesse ponto, o Brasil voltou a ocupar posição de articulador
regional. Durante anos – sob os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro –, o
País abdicou voluntariamente desse papel. Agora, tenta retomá-lo. Lula
compreende que liderança regional se exerce com capacidade de diálogo
simultâneo com Washington, Pequim, Europa e Sul Global.
O encontro com Trump reforça exatamente essa política de
autonomia sem isolamento. Lula foi aos EUA sem abandonar críticas ao
protecionismo norte-americano – mas também sem transformar a reunião num
espetáculo de confronto para consumo interno.
“Demos um passo importante na consolidação da relação
democrática e histórica que o Brasil tem com os EUA. As duas maiores
democracias do continente podem servir de exemplo para o mundo”, resumiu Lula.
“Saio muito, muito satisfeito.”
Ao final, se Trump elogiava Lula, Lula exaltava o diálogo e
ministros falavam em avanços objetivos, o Brasil saía reposicionado numa mesa
que concentra parte das decisões mais importantes da economia mundial. Lula não
resolveu tudo, mas saiu de Washington tendo feito o que mais importava: mostrou
que o Brasil tem peso, oferta e paciência para negociar sem se humilhar.
Fonte:
Portal Vermelho
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