Informativo
EMPREGO CRESCE, SINDICALIZAÇÃO REAGE E DESAFIOS DO TRABALHO SEGUEM NA PAUTA
Com quase
5 milhões de vagas criadas desde 2023, dirigentes sindicais destacam avanços do
governo Lula, retomada da organização coletiva e alertam para precarização,
juros altos e novas armadilhas patronais.
Por Cezar
Xavier
O mercado de trabalho brasileiro vive um
ciclo de recuperação desde o início do governo Lula, com a criação de quase 5 milhões de
empregos formais entre janeiro de 2023 e setembro de 2025, segundo dados do Novo Caged. Para o vice-presidente da
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), René Vicente,
esse movimento recoloca o trabalho no centro do projeto de desenvolvimento
nacional.
“O
governo Lula tem buscado avançar na geração de empregos com carteira assinada
por meio de programas estruturantes, como o PAC, a Nova Indústria Brasil e o
impulso à construção civil”, afirma em entrevista ao Portal
Vermelho. De acordo com ele, os dados confirmam um dos menores
patamares de desemprego da série histórica, o que representa uma vitória
concreta para a classe trabalhadora.
Programas
públicos e retomada do mercado interno
Os números do governo corroboram a avaliação sindical. Apenas em
outubro de 2025, o país gerou 85.147 postos
formais, puxados sobretudo pelos setores de Serviços (+82.436
vagas) e Comércio (+25.592). No acumulado de janeiro a outubro, foram 1,8
milhão de novos vínculos, crescimento de 3,8%.
A retomada das obras do PAC, a ampliação do crédito, a
valorização do salário mínimo e políticas de incentivo à indústria e aos
pequenos negócios criaram um ambiente mais favorável à geração de
emprego e renda, com impactos diretos no consumo e na atividade econômica.
Sindicalização
volta a crescer
Um dos efeitos mais relevantes desse novo cenário é a
reversão da queda histórica da sindicalização. Segundo René Vicente, após
anos de retração, a taxa voltou a subir, passando de 8,4% para 8,9% no último
trimestre, o que representa cerca de 840 mil novos
trabalhadores sindicalizados.
“Isso demonstra que o trabalhador quer buscar sua representação
sindical e percebe que voltou a existir espaço de diálogo”, avalia. Para ele, a
valorização do emprego formal fortalece não apenas a renda, mas também a
organização coletiva e a capacidade de luta por direitos.
Precarização
e rotatividade seguem como entraves
Apesar dos avanços, René alerta que a precarização continua
sendo uma marca estrutural do mercado de trabalho brasileiro. Um dos principais
problemas é a alta rotatividade. Em 2024, por exemplo, houve cerca de
25,5 milhões de admissões e 23,8 milhões de demissões, resultando em saldo
positivo de apenas 1,69 milhão de empregos.
“Essa rotatividade debilita a organização dos trabalhadores.
Eles não têm tempo de se identificar, se sindicalizar e lutar por melhores
condições”, afirma. Para o dirigente, o desafio agora é avançar na
criação de empregos de qualidade, com maior estabilidade, salários mais altos e
presença em setores de maior densidade tecnológica.
Salários
ainda baixos e impacto dos juros
Outro ponto crítico destacado pelo movimento
sindical é o nível salarial. O salário médio real de admissão chegou
a R$ 2.304,31 em
outubro, com crescimento real de 2,4% em um ano. Ainda assim,
René considera o valor insuficiente. “A grande maioria dos empregos
gerados tem renda muito baixa. Precisamos avançar para garantir salários
dignos.”
Nesse contexto, a política monetária é vista como
obstáculo central. Com a taxa Selic em 15% ao ano, uma das mais altas do mundo,
o investimento produtivo é desestimulado. “Nenhum industrial vai
investir com juros nesse patamar. Isso breca o desenvolvimento, a geração de
empregos e a distribuição de renda”, critica.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, reforça essa leitura ao
afirmar que os juros elevados já provocam desaceleração dos investimentos e
cobrou maior sensibilidade do Banco Central para destravar o crescimento.
Trabalho
por aplicativo e novos direitos
A precarização também se manifesta de forma intensa no trabalho
por aplicativos. René defende a regulamentação do setor, com
reconhecimento de vínculo empregatício, aplicação da CLT e garantia de direitos
previdenciários. “Esses trabalhadores atuam 12 horas por dia, seis dias
por semana, sem férias, 13º ou aposentadoria. Isso é insustentável.”
Segundo ele, centrais sindicais acompanham projetos no Congresso
e ações no STF que discutem o vínculo trabalhista, pressionando por uma
regulamentação que assegure proteção social, licença-maternidade e
aposentadoria digna.
Do
desmonte à reconstrução institucional
Para
Márcio Ayer, presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, Miguel
Pereira e Paty do Alferes, o atual momento representa um ponto de inflexão após
anos de retrocesso. “Um sopro novo atravessa fábricas, campos e lojas do
Brasil. É o fim de seis anos de desmonte, precarização e criminalização do
movimento sindical”, diz ele em entrevista ao Portal
Vermelho.
Ele lembra que a reforma trabalhista de 2017, a terceirização
irrestrita e o esvaziamento do Ministério do Trabalho fragilizaram sindicatos e
ampliaram a informalidade. A partir de 2023, o governo atuou em duas frentes:
medidas emergenciais, como a valorização do salário mínimo e a isenção do IR
até R$ 5 mil, e a reconstrução institucional, com fiscalização, combate ao
trabalho escravo e retomada do diálogo social.
Vitórias
parciais e riscos à frente
Ayer alerta, porém, que os avanços não podem gerar acomodação. A
luta contra a escala 6×1,
por exemplo, conquistou a adoção da 5×2 em algumas empresas, mas manteve
jornadas de 44 horas semanais, concentrando a exploração em menos
dias. “Trocaram uma gaiola por outra um pouco maior, mas
ainda é uma gaiola”, critica.
Ele também vê com preocupação a tentativa de vincular a redução
da jornada para 40 horas à ampliação da pejotização. “É uma
armadilha: concedem a redução em troca da precarização total, o que anula
qualquer ganho real.”
Cerco
jurídico e financeiro aos sindicatos
Além das disputas no local de trabalho, o movimento sindical
enfrenta um cerco institucional. De um lado, propostas que ameaçam extinguir a
Justiça do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho; de outro, ataques ao
financiamento sindical, como a tentativa de inviabilizar a contribuição
assistencial.
“A tática é clara: asfixiar financeiramente os
sindicatos para enfraquecer sua capacidade de negociação”, afirma Ayer.
Pesquisas recentes indicam, contudo, que 68% dos
trabalhadores consideram os sindicatos fundamentais,
sinalizando que o problema não é rejeição social, mas ofensiva
patronal organizada.
Autonomia,
organização e próximos passos
Para os dirigentes, o crescimento da
sindicalização é apenas o início. O desafio
central é transformar esperança em força organizada, com sindicatos
autônomos, financeiramente sustentáveis e enraizados na base.
“A proximidade com um governo aliado é uma conquista
tática, mas a pressão direta sobre o patrão é insubstituível”, resume
Ayer. A agenda inclui a redução da jornada para 40 horas, a regulamentação do
trabalho por aplicativo, a defesa da Justiça do Trabalho e a valorização
permanente do emprego e da renda.
Com quase 49 milhões de vínculos formais no país, os indicadores
mostram que o Brasil voltou a crescer. Para o movimento sindical, a tarefa
agora é garantir que esse crescimento se traduza em trabalho digno,
direitos ampliados e distribuição de renda, consolidando um novo ciclo de
desenvolvimento com justiça social.
Fonte:
Portal Vermelho
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