Informativo
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Abertura da Primeira Reunião de Sherpas da presidência brasileira do BRICS. Palácio do Itamaraty, Brasília - DF. Foto: Ricardo Stuckert / PR
"TRUMP USOU O BRASIL COMO PRETEXTO PARA ATINGIR O BRICS", DIZ EVANDRO CARVALHO
Na
entrevista ao Entrelinhas
Vermelhas, o jurista e especialista em relações internacionais Evandro
Carvalho analisa o tarifaço de Trump contra o Brasil, o papel da China no novo
cenário global e os dilemas da política externa brasileira em tempos de
rearranjo do poder mundial.
Por Cezar Xavier
O pacote tarifário anunciado por Donald Trump
contra o Brasil foi mais do que uma medida econômica: tratou-se de um ataque
político ao BRICS. Para o presidente norte-americano, o grupo — formado
originalmente por Brasil, Rússia, Índia e China — representa uma ameaça direta
à hegemonia dos Estados Unidos ao dólar. O ataque de Trump, segundo o professor
Evandro Carvalho, busca enfraquecer o bloco e, por tabela, punir países que se
aproximam dele.
Mas por
que o Brasil? “Trump usou o Brasil como pretexto para atingir o BRICS”, avalia
o professor. A crítica revela uma tensão crescente: o avanço da articulação
entre economias emergentes e o recuo da influência do G7, o grupo das maiores
potências ocidentais. Nesse jogo de forças, o Brasil se encontra numa encruzilhada
geopolítica — e ideológica.
Carvalho ressalta que, independentemente do espectro político,
há um consenso nacional em torno da necessidade de ampliar o protagonismo do
Brasil no cenário global. A divergência está no caminho a ser trilhado: a
direita prioriza o alinhamento com o G7; a esquerda aposta na articulação com
países em desenvolvimento, como os do BRICS.
BRICS:
expansão, autonomia e a força da China
O BRICS, longe de ser um agrupamento anti-G7, afirma Carvalho, é
antes uma tentativa de conquistar maior representatividade internacional,
sobretudo diante das projeções econômicas que colocam China, Índia e Brasil
entre as maiores economias do mundo até 2050.
Com a entrada de novos países — como Egito, Irã, Emirados Árabes
Unidos e Etiópia —, o bloco amplia sua influência. Mas é a China quem lidera
essa transformação. “A China não só tem uma política externa global, como tem
criado alternativas reais ao sistema financeiro dominado pelos EUA”, afirma o
professor, destacando o sistema CIPS (Sistema de Pagamentos Transfronteiriços
em RMB), alternativa ao SWIFT (Sociedade para as Telecomunicações Financeiras
Interbancárias Mundiais), e os avanços na desdolarização das trocas comerciais.
Carvalho avalia que os EUA têm reagido à ascensão do BRICS com
hostilidade. Editorialistas e figuras políticas, como o ex-presidente Jair
Bolsonaro, têm defendido abertamente a saída do Brasil do grupo. Mas romper com
o BRICS e, especialmente, com a China, seria um desafio logístico e político de
enormes proporções. “A relação com a China tem sido percebida por amplos
setores como uma relação de ganhos mútuos. Ainda que os ganhos não sejam
iguais, são melhores que o jogo de perde-ganha de outras relações bilaterais”.
China x
EUA: a locomotiva e o trono
A ascensão chinesa é resultado de um planejamento de longo
prazo, explica Carvalho. Desde os planos quinquenais até os investimentos
massivos em infraestrutura e pesquisa, a China se preparou sistematicamente
para enfrentar desafios como o tarifarismo de Trump. “Eles sabiam que a
ascensão econômica geraria resistência. E se prepararam para isso.”
A lógica chinesa, afirma, contrasta radicalmente com a
instabilidade política dos EUA, cuja democracia enfrenta ameaças internas —
inclusive o ressurgimento de ideologias de extrema direita. “A China é hoje um
corpo político mais estável, com projeto de nação claro. Os EUA estão
fraturados. E isso torna o jogo difícil para Washington.”
Para Carvalho, mesmo se o Partido Comunista da China quisesse
frear o crescimento econômico, talvez já fosse tarde demais. “Com 400 milhões
de pessoas na classe média e o objetivo de dobrar esse número até 2035, é uma
locomotiva que já está em movimento.”
Asean e a
nova geopolítica asiática
Diante do tarifaço, Lula anunciou a busca por novos parceiros
comerciais e diplomáticos, citando a Asean (Associação de Nações do Sudeste
Asiático) como uma das apostas. O bloco asiático, formado por países como
Indonésia, Vietnã e Malásia, representa uma região de crescimento econômico
acelerado e estabilidade relativa — atributos raros no cenário atual.
A aproximação com a Asean é coerente com o deslocamento do
“pêndulo econômico” global para a Ásia. E, mais uma vez, a China desempenha um
papel central, sendo o motor que impulsiona o dinamismo econômico da região.
“A relação com a China pode ser o vetor de expansão da presença
brasileira na Ásia”, afirma Carvalho. Mas, para isso, o Brasil precisa ampliar
sua capacidade de interlocução política, técnica e cultural. “Hoje, os chineses
conhecem muito mais o Brasil do que o Brasil conhece a China.”
Fonte:
Portal Vermelho
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