Informativo
Líderes de Brasil, Uruguai, Chile, Espanha e Colômbia posam sob o lema "Democracia Siempre" após a Reunião de Alto Nível em Santiago, que articulou uma frente internacional progressista contra o autoritarismo, a desigualdade e o unilateralismo. Foto: Rica
LULA ARTICULA FRENTE E CRITICA PRÁTICAS INTERVENCIONISTAS EM CÚPULA NO CHILE
Presidentes de Brasil, Chile,
Colômbia, Espanha e Uruguai defendem multilateralismo, justiça social e
regulação digital diante da ofensiva autoritária global da extrema direita.
Por
Lucas Toth
Em meio à escalada autoritária e à imposição de tarifas unilaterais por
parte do governo dos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
participou nesta segunda-feira (21), em Santiago, da Reunião de Alto Nível
“Democracia Sempre”.
Ao lado dos presidentes Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro (Colômbia),
Pedro Sánchez (Espanha) e Yamandú Orsi (Uruguai), Lula defendeu a construção de
uma frente internacional progressista contra o extremismo de direita e afirmou
que os países precisam atuar juntos diante da tentativa de retomada de práticas
intervencionistas.
Reunidos no Palácio de La Moneda, os presidentes de cinco países
reafirmaram nesta segunda-feira o compromisso com uma agenda democrática comum,
baseada na cooperação internacional, na justiça social e na defesa do
multilateralismo.
O encontro marca a segunda edição da iniciativa articulada originalmente
por Lula e Pedro Sánchez em 2024, durante a Assembleia Geral da ONU, e acontece
em um novo contexto de tensão: a ofensiva tarifária do governo de Donald Trump
e o avanço de forças de extrema direita em diversos continentes.
Na declaração conjunta à imprensa, os chefes de Estado apresentaram os
três eixos centrais da articulação. São eles a defesa da democracia e do
multilateralismo, o enfrentamento às desigualdades e o combate à desinformação
com regulação das plataformas digitais.
O presidente brasileiro sublinhou que a democracia não se limita a
eleições periódicas e que os sistemas políticos perderam legitimidade ao
deixarem de responder às necessidades populares.
“O sistema político e os partidos caíram em descrédito”, afirmou, ao
defender um novo modelo de desenvolvimento com foco no bem-estar social. “A
democracia liberal não foi capaz de responder aos anseios e necessidades
contemporâneas”, disse.
Durante sua fala, Lula também defendeu medidas concretas para enfrentar
os desequilíbrios estruturais do sistema global. “Não há justiça em um sistema
que amplia benefícios para o grande capital e corta os direitos sociais”,
disse, ao defender que “os super-ricos precisam arcar com a sua parte nesse
esforço”.
Ele lembrou que 733 milhões de pessoas passam fome todos os dias e que
políticas de austeridade impõem um sofrimento intolerável ao Sul Global. “Sem
um novo modelo de desenvolvimento, a democracia seguirá ameaçada por aqueles
que colocam seus interesses econômicos acima dos da sociedade e da pátria”,
declarou.
Pedro Sánchez acusou diretamente o que chamou de “internacional
reacionária” e alertou que o progressismo precisa se articular de forma
coordenada para enfrentar a ofensiva global da ultradireita.
“Preservar a democracia é um dever moral”, disse. O presidente espanhol
ainda anunciou que a próxima edição da cúpula ocorrerá em 2026, sob organização
da Espanha.
Já Gabriel Boric defendeu que a democracia deve “entregar resultados” e
reforçou que ninguém pode se salvar sozinho. “A crise climática, a pandemia e o
crime internacional são desafios que devemos enfrentar em conjunto”, alertou o
chileno
A fala de Gustavo Petro retomou a ideia de que a democracia deve ser
defendida com convicção e com base em valores humanos fundamentais, como a
liberdade e a solidariedade. Ele alertou para a destruição da multilateralidade
por discursos irracionais e disse que, diante da escuridão, cabe aos
progressistas “ligar a luz”.
Yamandú Orsi destacou a necessidade de autocrítica diante da perda de
credibilidade das instituições e defendeu que a democracia continue sendo
compreendida como a melhor forma de convivência social.
Cúpula terá continuidade na ONU e articula proposta global com
participação da sociedade civil
Os presidentes confirmaram a elaboração de uma proposta conjunta que
será apresentada na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, em
Nova York.
Segundo Boric, o novo ciclo da iniciativa incluirá lideranças de outros
continentes e buscará “construir alternativas concretas frente aos desafios
comuns enfrentados pelas democracias”.
Durante sua declaração, o presidente chileno anunciou que já convidou
chefes de Estado que aceitaram se somar ao esforço.
Veja a lista de chefes de Estado que aceitaram o convite:
• Claudia Sheinbaum (México);
• Xiomara Castro (Honduras);
• Keir Starmer (Reino Unido);
• Mark Carney (Canadá);
• Anthony Albanese
(Austrália);
• Cyril Ramaphosa (África do Sul);
• Mette Frederiksen (Dinamarca).
“Somos um grupo importante, grande, de líderes de países diferentes, mas
com visões que se complementam para defender a democracia”, disse Boric.
Ele ressaltou que o esforço coletivo se diferencia por propor medidas
estruturais, como o enfrentamento à desigualdade, o combate à desinformação e a
cooperação contra o crime organizado transnacional.
Um dos eixos centrais da articulação é a regulação das plataformas
digitais, tema que uniu os cinco presidentes.
Lula foi incisivo ao defender que a liberdade de expressão não seja
manipulada para proteger discursos de ódio e ataques às instituições.
“Liberdade de expressão não se confunde com autorização para incitar a
violência, difundir o ódio, cometer crimes e atacar o Estado Democrático de
Direito”, afirmou.
Ele também destacou que a transparência dos dados e a criação de uma
governança digital global são fundamentais para garantir um debate público
livre e plural.
A agenda da reunião incluiu ainda um diálogo com intelectuais e
representantes da sociedade civil. Após a declaração à imprensa, os líderes
participaram de um almoço com nomes como o economista sul-coreano Ha-Joon
Chang, a filósofa norte-americana Susan Neiman e o Prêmio Nobel Joseph
Stiglitz.
Em seguida, se reuniram com mais de 300 organizações chilenas, incluindo
sindicatos, centros de pesquisa, movimentos populares e grupos
estudantis.
Segundo Lula, essa articulação com a base social é decisiva para
resgatar a legitimidade democrática: “A defesa da democracia não cabe somente
aos governos. Requer participação ativa da academia, dos parlamentos, da
sociedade civil, da mídia e do setor privado.”
Gabriel Boric reiterou que a proposta construída não será apenas
institucional, mas também cultural e social.
“Não basta apontar quem pensa diferente. Temos que ser capazes de propor
uma alternativa. A democracia tem que entregar resultados”, afirmou. Ele também
reforçou que os problemas democráticos contemporâneos — como a desigualdade, o
autoritarismo, o desmonte ambiental e o bloqueio de ajuda humanitária — exigem
respostas globais articuladas.
Fonte:
Portal Vermelho
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