Informativo
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante declaração à imprensa, na Sala de Coletiva. Rio de Janeiro - RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR
LULA CONDENA AMEAÇA DE TRUMP AO BRICS: "NÃO QUEREMOS IMPERADOR"
O norte-americano tenta impedir
aproximações com o bloco, ameaçando impor tarifas. O presidente brasileiro
considera a atitude pouco responsável e nada séria.
Por Murilo da Silva
O
presidente Lula rebateu, nessa segunda-feira (7), a ameaça de Donald Trump de retaliar com tarifas os países que aderirem às políticas
“antiamericanas” do Brics, como classificou o presidente dos Estados
Unidos.
Em coletiva de imprensa após o encerramento da Cúpula do Brics,
no Rio de Janeiro (RJ), Lula disse que nem deveria comentar, pois classifica a
postura de Trump pouco responsável e nada séria. Além disso, ressaltou que os
países do grupo, assim como o resto do mundo, não precisam de um “imperador” e
têm o direito à reciprocidade nas medidas.
“Eu sinceramente nem acho que deveria comentar, porque eu não
acho uma coisa muito responsável e séria um presidente da república de um país
do tamanho dos Estados Unidos ficar ameaçando o mundo através da internet. Não
é correto. O mundo mudou: não queremos imperador. Nós somos países soberanos.
Se ele achar que pode taxar, os países têm o direito de taxar também. Existe a
lei da reciprocidade. Sinceramente, tem outras coisas e outros fóruns para
falar com outros países. As pessoas têm que aprender que respeito é bom.
Respeito é muito bom. A gente gosta de dar e gosta de receber”, afirma Lula.
Ao ser questionado sobre a defesa que o mandatário
norte-americano fez do ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula disse que o Brasil
“tem lei, tem regra e tem um dono chamado povo brasileiro, portanto, dê palpite
nos assuntos do seu país e não do nosso”, rebate.
Sobre a repercussão do tema tarifário dentro da Cúpula, o
presidente fez a indicação de que ninguém tocou no assunto: “Não demos nenhuma
importância a isso.”
Transação
em moedas locais
Quando questionado sobre o avanço no debate sobre transação
entre os países do grupo nas suas próprias moedas, deixando o dólar de lado,
Lula afirma que este é um caminho sem volta.
“O mundo precisa encontrar um jeito para que a nossa relação
comercial não precise passar pelo dólar. Quando for com os Estados Unidos ela
passa pelo dólar. Mas quando for com a Argentina, com a China, com a Índia, não
precisa passar. Quando for com a Europa discute-se em Euro. […] E, obviamente,
nós temos toda a responsabilidade de fazer isso com muito cuidado, com a
participação dos Bancos Centrais. É uma coisa que não tem volta. Isso vai
acontecendo aos poucos até que seja consolidado”, sublinha.
IOF
Também foi perguntado sobre a questão do IOF (Imposto sobre
Operações Financeiras). O presidente brasileiro classifica a atuação do
Congresso como “totalmente anticonstitucional” ao barrar um decreto do
Executivo, e citou exemplos de outros governos em que medidas similares não foram
questionadas.
Apesar do embate, entende que é uma “divergência política
própria da democracia” e que pretende resolver o tema ao buscar um consenso
durante a semana.
Brics e uma nova abordagem ao
multilateralismo
Antes das perguntas dos jornalistas, Lula fez um balanço da
reunião do Brics. De acordo com o presidente, o encontro foi um dos mais
significativos, assim como o realizado no âmbito do G20, também no Rio de Janeiro, em
novembro de 2024.
Em sua avaliação, o bloco oferece uma nova abordagem para o
multilateralismo internacional: “Temos a convicção de que não queremos mais um
mundo tutelado. Não queremos mais Guerra Fria ou o desrespeito à soberania. Não
queremos mais guerra e, por isso, estamos discutindo profundamente a
necessidade de mudanças estruturais, inclusive no Estatuto da ONU, para recriar
algo com base nos acontecimentos atuais, e não nos de 1945. Aquele mundo ficou
para trás. Os saudosistas do fascismo e do nazismo não estão no Brics. No grupo
buscamos fortalecer o processo democrático, o multilateralismo, a paz, o
desenvolvimento e a participação social.”
O líder brasileiro inclusive reforça o pedido de mudanças no
Fundo Monetário Internacional (FMI) como forma de refletir o desejo por um
banco de investimento que atenda às necessidades dos países mais pobres, sem
levá-los à falência, como tem acontecido: “O modelo de austeridade faz com que
as dívidas sejam impagáveis”, alerta.
“Guerra
contra o Hamas e só matam inocentes, mulheres e crianças?”
Lula ainda destaca que, no marco dos 80 anos da Segunda Guerra
Mundial, período após o qual os organismos internacionais foram criados, é
preciso reforçar o multilateralismo e não o destruir, em um mundo novamente em
convulsão.
“Estamos vivendo hoje, possivelmente, depois da Segunda Guerra
Mundial, o maior período de conflito entre os países. É guerra esparramada para
tudo quanto é lado. E o mais grave é que os países do Conselho de Segurança da
ONU, que deveriam ser o paradigma para tentar evitar essas guerras, são eles os
promotores”, critica.
Ao abordar todos os conflitos em curso, o presidente reiterou as
críticas ao que acontece em Gaza: “Dizer que aquilo é uma guerra contra o Hamas
e só matam inocentes, mulheres e crianças? E cadê a instituição multilateral
para colocar um fim nisso? Não existe! A ONU deveria estar condenando, mas a
ONU não pode condenar, porque ela está envolvida nisso. Quando eu digo a ONU, é
porque tem países no Conselho de Segurança envolvidos nisso, excluindo a China,
mas o restante está envolvido, tanto da Europa quanto os Estados Unidos”,
explica Lula, ao indicar o motivo de não haver uma interlocução para uma
proposta alternativa ao que temos, o que evidencia a necessidade de
fortalecimento do grupo por este contexto.
“Brics
não nasceu para afrontar ninguém”
Na fala, o presidente também defende mudanças na governança
mundial para que represente de forma equitativa países de todas as regiões do
mundo.
“O Brics, que não nasceu para afrontar ninguém, é um novo modo
de fazer política. Uma coisa mais solidária. Em que o banco esteja muito mais
preocupado em ajudar os países em desenvolvimento a se desenvolver. E que na
questão ambiental a gente tenha consciência de que a questão do clima é muito
séria”, menciona Lula ao rememorar os desastres no Rio Grande do Sul e o mais
recente no Texas, nos Estados Unidos.
Nesse ponto, Lula acentua a força do grupo enquanto promotor de
uma nova realidade: “É um modelo novo, uma abordagem nova, algo que trata com
muito mais cuidado, não é uma coisa fechada, não é um clube de privilegiados, é
um conjunto de países querendo criar um outro jeito de organizar o mundo, do
ponto de vista econômico, do ponto de vista do desenvolvimento, do ponto de
vista da relação humana.”
Ao finalizar a exposição sobre o encontro, ressaltou sua alegria
porque “o Brics está se tornando campeão do mundo em políticas ambientais, de
inteligência artificial, de desenvolvimento e envolvimento da sociedade no
debate.”
Fonte:
Portal Vermelho
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