Informativo
Caminhoneiros em Gravataí, no Rio Grande do Sul; e Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Diego Vara | Alan Santos/PR)
SEM CONTROLE, CAMINHONEIROS DO AGRO IGNORAM ÁUDIO DE BOLSONARO E MANTÊM PARALISAÇÃO
Reuters - Caminhoneiros
mantinham paralisações em 15 Estados na manhã desta quinta-feira, mesmo após a
divulgação na noite da véspera de um áudio do presidente Jair Bolsonaro pedindo
a desmobilização do movimento e a liberação dos locais onde há bloqueio.
A autenticidade da fala de Bolsonaro, que tem
nos caminhoneiros importante base de apoio, foi confirmada pelo ministro da
Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.
De acordo com boletim divulgado pelo
Ministério da Infraestrutura às 8h30 no Twitter, havia registro de concentração
em 15 Estados e, segundo a pasta, não havia interdição de pista na malha
rodoviária federal, exceto pelo causado por um protesto pela causa indígena na
BR-174, em Roraima.
Na rodovia Régis Bittencourt, na altura de
Embu das Artes (SP), caminhoneiros bloquearam completamente a pista por volta
das 3h, mas o tráfego foi liberado às 7h30.
De acordo com o ministério, as concentrações
de caminhoneiros aconteciam em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná,
Espírito Santo, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Minas Gerais, Tocantins, Rio de
Janeiro, Rondônia. Maranhão, Roraima, Pernambuco e Pará.
Na noite de quarta, Bolsonaro enviou áudio
pedindo que seus apoiadores desmobilizassem os protestos, alegando que a
manifestação poderia agravar a alta da inflação e a situação econômica já
frágil do país --a crise tem se refletido nos índices de popularidade do
presidente apontados em pesquisas de opinião.
"Fala para os caminhoneiros aí, são
nossos aliados, mas esses bloqueios aí atrapalham a nossa economia, isso
provoca desabastecimento, inflação. Prejudica todo mundo, especialmente os mais
pobres. Então dá um toque aí nos caras, se for possível, para liberar, tá ok,
para a gente seguir a normalidade", disse o presidente em um áudio enviado
por mensagem a interlocutores da categoria.
Pouco depois, em vídeo divulgado nas redes
sociais, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, confirmou a
autenticidade do áudio de Bolsonaro.
"O áudio é real, é de hoje, e mostra a
preocupação do presidente com a paralisação. Essa paralisação ia agravar
efeitos na economia de inflação que ia impactar os mais pobres, os mais
vulneráveis", disse Tarcísio.
"A gente sabe que há uma preocupação de
tentar resolver problemas graves no país, mas a gente não pode tentar resolver
um problema criando outro. Eu peço a todos que ouçam atentamente a palavra do
presidente", acrescentou.
Entretanto, na Régis Bittencourt, o bloqueio
seguiu até 7h30 desta quinta. Caminhoneiros que não participavam do movimento
foram obrigados a parar sob ameaça de danos aos veículos e tiveram os pneus
furados para que permanecessem no local, onde seguiram mesmo após a liberação
do tráfego. Seis viaturas da Polícia Rodoviária Federal acompanharam a
paralisação.
O áudio do presidente não foi suficiente para
sensibilizar as lideranças que protestaram na rodovia federal paulista.
"Primeiro que ele como presidente da
nação não poderia tomar partido, até porque prejudicaria o nosso próprio
movimento. O nosso movimento é livre, são pais de família e mães de família
aqui, da área do caminhão, da área da agricultura, que decidiram parar porque
não aguentam mais", disse a caminhoneira Claudia Isabel, que participava
do bloqueio na Régis Bittencourt.
"Não é porque ele (Bolsonaro) falou ou
deixou de falar, a gente está lutando por um país melhor."
Os caminhoneiros reclamavam do preço dos
combustíveis e concordavam com versão constantemente ventilada por Bolsonaro de
que o ICMS, um imposto estadual, é o principal responsável pela alta.
PREJUÍZOS
Motoristas que não fazem parte do movimento
foram coagidos a parar na estrada sob ameaças.
"Na verdade me obrigaram a parar aqui.
Aí furaram o meu pneu e estou aqui esperando chegar o socorro", disse
Bruno Rodrigo dos Santos, na Régis Bittencourt.
"Eu estou revoltado, se fosse uma
paralisação que tivesse algum benefício, mas não, estão prejudicando os
próprios irmãos de estrada. Estão deixando a gente no prejuízo, isso não é uma
coisa certa de se fazer, se fosse para fazer, que fosse pacífico."
No Rio de Janeiro, havia pontos de
concentração de caminhoneiros nesta manhã, mas sem bloqueios, na altura do km
75 da BR-101, em Campos dos Goytacazes, no km 13 da BR-465 e no km 113 da
BR-040, em frente à refinaria Duque de Caxias (Reduc), onde os caminhoneiros
ameaçam bloquear a estrada mais tarde nesta quinta. A Polícia Rodoviária
Federal acompanha as concentrações.
Além disso, em Brasília, caminhões
permaneciam na Esplanada dos Ministérios após os protestos com pautas
antidemocráticas realizados no feriado do Dia da Independência, no 7 de
Setembro, e a Polícia Militar do Distrito Federal negociava a retirada dos
veículos, por ora, sem sucesso.
Os protestos dos caminhoneiros, aliados do
governo Bolsonaro, começaram um dia depois das manifestações do 7 de Setembro,
quando o presidente renovou os ataques ao Supremo Tribunal Federal e ameaçou a
corte com uma ruptura.
Para além das pautas colocadas pelo próprio
presidente --impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de
Moraes e defesa do voto impresso-- os caminhoneiros colocaram também as suas,
centradas na queda do preço dos combustíveis.
Em redes bolsonaristas, aparecem várias
manifestações contra o preço dos combustíveis, mas comprando a versão de
Bolsonaro, de que o alto custo seria culpa basicamente do ICMS, imposto cobrado
pelos Estados.
No áudio enviado na noite de quarta,
Bolsonaro diz ainda que cabe a ele negociar com autoridades para resolver o
problema da categoria, mas não cita especificamente o preço dos combustíveis.
“Deixa com a gente aqui em Brasília agora.
Não é fácil negociar, conversar por aqui com outras autoridades, mas a gente
vai fazer a nossa parte, vamos buscar uma solução para isso, tá ok? E aproveita
aí e da um abraço em meu nome em todos os caminheiros, tá ok?”, disse o
presidente.
Entretanto, apoiadores de Bolsonaro em grupos
nas redes sociais afirmavam que o pedido do presidente no áudio era apenas
protocolar, pois ele não poderia pela força do cargo apoiar o movimento
abertamente, e que as manifestações deviam continuar.
Antes de se tornar mais um risco para o
governo, o movimento dos caminhoneiros foi usado por bolsonaristas como o
cantor Sérgio Reis como uma ameaça de parar o país para que reivindicações do
grupo fossem atendidas. Em um vídeo, Reis foi filmado dizendo que os
caminheiros iriam parar o país até que o Senado aceitasse o impeachment de
Alexandre de Moraes.
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