Informativo
O APOCALIPSE QUE NUNCA CHEGA E A VELHA LADAINHA CONTRA REDUÇÃO DA JORNADA
Empresariado reedita previsões de
colapso — já desmentidas pela história — diante do debate sobre o fim da escala
6×1 e a jornada de 40 horas no Brasil.
Por Marcos Verlaine
É o
catastrofismo como método e argumentos do início dos séculos 19 e 21, que
“fundamentam” o pensamento dos representantes das confederações patronais que
estiveram terça-feira (7) na CCJ da Câmara para debater o fim da escala 6×1 e a
redução da jornada para 40 horas semanais.
Chega a soar patético, embora seja, infelizmente, bem real.
Insistem na velha retórica do “fim do mundo”, enquanto tentam empurrar a
votação das propostas para depois das eleições. E então, quem sabe, adiá-las
para futuro indefinido. Desses que nunca chegam.
Nesse debate há padrão histórico difícil de ignorar: sempre que
o Brasil discute ampliar direitos trabalhistas, parte do empresariado reage com
previsões dramáticas. Agora, no debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da
jornada de 44 para 40 horas semanais, o roteiro se repete com fidelidade quase
didática.
Segundo análise publicada pelo Diap — “Catastrofismo
reciclado: patronais repetem roteiro contra redução da jornada e ignoram
evidências históricas”1—, trata-se menos de diagnóstico
econômico e mais de tradição retórica.
Não é a primeira vez. No século 19, o fim da escravidão foi
tratado como sentença de morte da economia nacional. Décadas depois, a CLT
também foi alvo de críticas semelhantes. Mais recentemente, no início dos anos
2000, o aumento do salário mínimo foi cercado por previsões de quebradeira
generalizada. O tempo tratou de desmontar essas “teses” com simplicidade
constrangedora: nada disso aconteceu.
O salário mínimo brasileiro, hoje na casa dos 290 dólares,
continua baixo para padrões internacionais e, ainda assim, não há registro do
colapso prometido. O “fim do mundo” econômico parece sempre adiado.
Redução
da jornada: o que está em jogo
A proposta de reduzir a jornada semanal para 40 horas e rever a
escala 6×1 — 6 dias de trabalho para 1 de descanso — toca em questões
estruturais: produtividade, qualidade de vida e distribuição do tempo social.
Defensores da mudança apontam evidências acumuladas em diversos
países e setores: jornadas menores tendem a aumentar a produtividade por hora
trabalhada, reduzir afastamentos por saúde e melhorar o engajamento dos
trabalhadores.
Há também impacto social relevante — mais tempo para família,
estudo e lazer —, que são elementos frequentemente negligenciados em economias
marcadas por longas jornadas.
Críticos, por outro lado, insistem no argumento de aumento de
custos e perda de competitividade. É um ponto legítimo de debate, sobretudo
para setores intensivos em mão de obra e com margens apertadas. Pequenas e
médias empresas podem enfrentar dificuldades de adaptação se não houver
políticas de transição.
Mas aqui reside o ponto central: reconhecer desafios não é o
mesmo que decretar catástrofes.
Vantagens
concretas
A literatura econômica e experiências internacionais indicam
alguns efeitos recorrentes da redução de jornada:
• Aumento da produtividade por hora: trabalhadores descansados
produzem mais e melhor;
• Redução de doenças ocupacionais: menos afastamentos e custos
indiretos;
• Geração potencial de empregos: ao redistribuir horas de
trabalho; e
• Estímulo ao consumo: mais tempo livre pode significar maior
circulação econômica.
Além disso, há o componente civilizatório: a organização do
trabalho não pode ser pensada apenas como variável de custo, mas como dimensão
da vida humana.
Desafios
reais (sem exageros)
Isso não significa que a transição seja trivial. Há riscos e
pontos de atenção:
• Aumento de custos no curto prazo, especialmente em setores de
baixa produtividade.
• Necessidade de reorganização produtiva, com investimentos em
tecnologia e gestão.
• Impacto desigual entre setores, que vai exigir políticas
públicas calibradas.
Esses são problemas concretos — e, justamente por isso —, que
devem ser enfrentados com política econômica, não com retórica alarmista.
ironias
da história econômica
Talvez o traço mais curioso desse debate seja sua
“previsibilidade”. O mesmo argumento — “vai quebrar o País” — atravessa
séculos, regimes econômicos e transformações tecnológicas. Mudam os contextos,
mas a reação é quase automática.
Se dependesse dessas previsões, o Brasil ainda estaria preso ao
trabalho escravo, sem legislação trabalhista e com salários aviltantes como
regra permanente. A história, felizmente, seguiu outro caminho.
Isso não transforma toda proposta de avanço em solução perfeita,
nem elimina a necessidade de debate técnico rigoroso. Mas impõe um mínimo de
prudência: antes de anunciar o apocalipse, convém consultar o passado.
Entre o
medo e a evidência
O debate sobre o fim da escala 6×1 e a jornada de 40 horas é
legítimo, necessário e, de fato, recorrente. O País precisa discutir como
trabalhar melhor; não apenas mais.
O que não se sustenta é a reciclagem de um catastrofismo que já
falhou reiteradas vezes. Como sugere o Diap, há descompasso entre o discurso
patronal mais alarmista e as evidências históricas.
No fim das contas, a pergunta não é se o Brasil pode reduzir a
jornada. A pergunta é se continuará refém de argumentos que, há mais de 1
século, insiste em prever colapso que nunca chega.
____________________
Fonte:
Portal Vermelho
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