Informativo
Abertura da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU, no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camilo. Campo Grande - MS | Foto: Ricardo Stuckert / PR
BRASIL SEDIA COP15 E ARTICULA RESPOSTA GLOBAL À CRISE DA BIODIVERSIDADE
Com mais de 145 mil hectares
protegidos, governo brasileiro aposta no multilateralismo para enfrentar o
colapso das espécies migratórias.
Por Bárbara Luz
O Brasil
abriu, nesta semana, a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a
Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), reunindo
132 países e a União Europeia em Campo Grande (MS), entre os dias 23 e 29 de
março. Trata-se do principal fórum global dedicado à proteção de animais que
atravessam fronteiras — como aves, baleias e tartarugas — e que dependem de
cooperação internacional para sobreviver. A conferência acontece em um momento
crítico onde uma em cada quatro espécies migratórias está ameaçada de extinção.
Criada em 1979, a Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) é
um tratado internacional que organiza esforços conjuntos para preservar animais
que percorrem longas distâncias entre países, conectando ecossistemas e
garantindo equilíbrio ambiental. No Brasil, exemplos não faltam: a baleia
jubarte que se reproduz em Abrolhos, as tartarugas marinhas que cruzam oceanos
e retornam ao litoral brasileiro, ou a toninha — pequeno golfinho ameaçado —
que circula entre Brasil, Argentina e Uruguai.
O que é a
CMS e por que ela importa
A CMS funciona a partir da cooperação entre países que
compartilham rotas migratórias. Como explicou o secretário-executivo do
Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, a lógica é simples e
poderosa: “sse os países por onde essas espécies passam não se articulam para
garantir as condições necessárias à sua trajetória, elas simplesmente deixam de
existir”.
O Brasil ocupa papel central nesse sistema. Com dimensões
continentais e uma das maiores biodiversidades do planeta, o país abriga ou
recebe centenas de espécies migratórias — só de aves, são 126 espécies que
passam anualmente pelo território nacional.
Além disso, a COP15 marca a primeira vez que o Brasil sedia uma
conferência da CMS, assumindo também a presidência do encontro pelos próximos
três anos, o que reforça seu protagonismo na agenda ambiental global.
Um alerta
global sober a conservação
Os dados que chegam à COP15 são alarmantes. Houve um declínio de
24% no estado de conservação das espécies migratórias, com uma em cada quatro
ameaçada de extinção. Mais grave ainda: a proporção de espécies com populações
em queda subiu de 44% para 49% desde a última conferência, realizada em 2024.
As causas são conhecidas — e profundamente ligadas ao modelo de
desenvolvimento predatório: perda de habitat, poluição, caça ilegal, barreiras
físicas como linhas de transmissão e turbinas eólicas, além das mudanças
climáticas.
Para além da biodiversidade, o problema afeta diretamente a vida
humana. Espécies migratórias são bioindicadores, ou seja, se desaparecem ou
diminuem, é sinal de que os ecossistemas que garantem água, alimento e clima
também estão em colapso.
Lula na
COP15: medidas concretas e prioridades
Neste domingo, 22, na véspera da abertura, durante a Cúpula de
Líderes, o presidente Lula (PT) anunciou medidas que vão além do discurso.
Foram assinados três decretos que criam e ampliam unidades de conservação,
somando mais de 145 mil hectares protegidos no país. São eles: a reserva de
Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas (MG),
ampliação do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense (MT) e ampliação da
Estação Ecológica de Taiamã (MT).
Entre as prioridades brasileiras na conferência estão o
fortalecimento do princípio das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”
— que cobra maior compromisso dos países ricos —, a ampliação do financiamento
ambiental e a universalização da Declaração do Pantanal.
Lula
também reafirmou a meta de proteger 30% da área oceânica até 2030 e fez um
chamado político que conecta a pauta ambiental à agenda global de direitos. “A
história da humanidade também é uma história de migrações, deslocamentos,
vínculos e conexões. No lugar de muros e discursos de ódio, precisamos de
políticas de acolhimento e de um multilateralismo forte e renovado”, disse no
discurso de encerramento.
Pantanal:
símbolo e fronteira da cooperação
A escolha de Campo Grande como sede não é casual. O Pantanal,
maior área úmida continental do planeta, é um verdadeiro “hub vital” para
espécies migratórias e um dos ecossistemas mais sensíveis às mudanças
climáticas.
Compartilhado por Brasil, Paraguai e Bolívia, o bioma evidencia
a essência do desafio: proteger a biodiversidade exige articulação entre
países. A própria COP15 busca fortalecer esse tipo de cooperação, inclusive com
acordos específicos — como o que envolve Brasil, Argentina e Uruguai para
proteger a toninha.
Multilateralismo
em tempos de conflito
A COP15 acontece em um cenário global marcado por guerras e
tensões econômicas. Para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, esse
contexto torna a conferência ainda mais relevante. “Tal como a natureza não
reconhece fronteiras, a cooperação e a solidariedade também têm o poder de
flexibilizá-las em prol do bem comum”, afirmou.
Ela também destacou que a crise ambiental caminha junto com a
crise social: na América Latina, 9,8% da população vive em pobreza extrema —
índice superior ao registrado em 2014.
Nesse cenário, a defesa do multilateralismo aparece como eixo
central. A COP15 se coloca, assim, não apenas como uma conferência ambiental,
mas como um espaço político de disputa sobre o futuro do planeta.
O que
está em jogo
Com mais de 100 itens na agenda, a COP15 discutirá desde a
inclusão de novas espécies na lista de proteção até a criação de acordos
internacionais e estratégias de conservação.
Ao final da conferência, o Brasil seguirá à frente das
negociações por três anos, com a responsabilidade de transformar compromissos
em ações concretas.
Num mundo fragmentado por conflitos e interesses nacionais, o
desafio é claro: proteger as espécies migratórias significa, em última
instância, proteger as próprias condições de vida na Terra. E, nesse cenário, o
Brasil volta ao centro do debate global — não apenas como anfitrião, mas como
protagonista.
Fonte: Portal Vermelho, com informações do Governo Federal
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